Auditoria aponta R$ 905 mil a devolver ao SUS em hospital ligado ao marido da vice-governadora de Pernambuco

Relatório do DenaSUS identificou 113 irregularidades em procedimentos e questionou mecanismos de controle do governo estadual; hospital contesta conclusões. Por Reginaldo Bezerra. 14 de agosto de 2026 | Atualizado às 11h35

Auditoria aponta R$ 905 mil a devolver ao SUS em hospital ligado ao marido da vice-governadora de Pernambuco

Imagem | Foto | Acervo do portal 

Uma auditoria do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS) aponta que a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, teria recebido R$ 905,2 mil em valores considerados indevidos. A unidade pertence ao empresário Jorge Branco, marido da vice-governadora de Pernambuco, Priscila Krause (PSD). O relatório recomenda a devolução dos recursos ao Fundo de Saúde.

Auditoria encontrou 113 irregularidades

Segundo o relatório, 113 Autorizações de Internação Hospitalar (AIHs) apresentaram inconsistências por procedimentos que não teriam sido comprovados nos prontuários analisados. O montante relacionado a essas ocorrências chega a aproximadamente R$ 897 mil.

Outros R$ 7,9 mil teriam sido repassados para o cumprimento do piso nacional da enfermagem destinados a profissionais que, segundo os auditores, já não trabalhavam na instituição.

Ao final, o DenaSUS recomendou a devolução de R$ 905.233,95 aos cofres do SUS. O período analisado integra uma fiscalização solicitada pela Assembleia Legislativa de Pernambuco sobre R$ 55,8 milhões em recursos federais repassados pelo Fundo Estadual de Saúde entre janeiro de 2023 e julho de 2025.

Contratos também são questionados

A auditoria não se restringiu aos pagamentos. O relatório apontou que a Secretaria Estadual de Saúde mantém seis termos de credenciamento com o hospital, modelo que, segundo os auditores, fragmentaria o acompanhamento financeiro e dificultaria a definição de metas de desempenho.

A unidade é apontada como único prestador privado de UTI, oncologia e nefrologia no Agreste Meridional, o que amplia sua relevância para a assistência regional.

Para o DenaSUS, a ausência de indicadores de desempenho, de mecanismos formais de acompanhamento e de um Núcleo Interno de Regulação estruturado representa fragilidade na gestão. O relatório também cita inconsistências no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES).

Relação familiar aumenta a pressão por transparência

Um dos pontos mais sensíveis do relatório é a relação entre a propriedade do hospital e o núcleo do governo estadual.

O DenaSUS afirma que a manutenção de contratos sem indicadores de resultados, envolvendo familiar de uma autoridade do alto escalão, aumenta o risco de afronta aos princípios da impessoalidade e da moralidade administrativa. A observação não equivale, por si só, à conclusão de que houve favorecimento ou ilegalidade, mas coloca sob escrutínio os mecanismos utilizados para contratação, fiscalização e pagamento dos serviços.

O próprio papel do DenaSUS é avaliar, de forma independente, a aplicação de recursos federais e recomendar melhorias relacionadas à legalidade, economicidade, eficiência e efetividade na utilização do dinheiro público.

Governo e hospital contestam relatório

O Jornal da Record produziu e exibiu uma reportagem na útlima quinta-feira (13) e segundo a reportagem, a Secretaria de Saúde de Pernambuco informou que pretende recorrer à Justiça e solicitar a revisão do relatório final.

A Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro também contestou as conclusões. Segundo a instituição, os valores questionados representam cerca de 1% dos recursos auditados e decorreriam, principalmente, de divergências sobre a codificação administrativa de cirurgias oncológicas que, segundo o hospital, foram efetivamente realizadas.

A instituição afirma que apresentará a documentação médica correspondente e reafirma seu compromisso com o SUS e com a população atendida há mais de cinco décadas.

O que está em jogo

O caso ultrapassa a discussão sobre os valores apontados pela auditoria. A questão central passa pela capacidade do poder público de demonstrar que cada real destinado ao SUS correspondeu a um serviço efetivamente prestado e devidamente comprovado.

A contestação apresentada pelo governo e pelo hospital ainda deverá ser analisada pelas instâncias competentes. Até que haja decisão definitiva, as conclusões do relatório devem ser tratadas como achados de auditoria e recomendações de controle, e não como condenação definitiva.