Entre a marcha e a memória: breve reflexão sobre o Dom Vital em Paranatama e os desfiles cívicos
Entre patriotismo, disciplina e cultura popular, a trajetória dos desfiles cívicos do Colégio Municipal Dom Vital revela como a escola ajudou a representar e também a transformar a identidade de Paranatama. Por Reginaldo Bezerra. 07 de setembro de 2026 | Atualizado às 23h42
Imagem | Foto | Acervo do Portal
Durante décadas, quando os estudantes do Colégio Municipal Dom Vital deixavam as salas de aula para ocupar as ruas de Paranatama, não estavam apenas participando de uma cerimônia. Marchavam dentro de um modelo de educação que valorizava disciplina, ordem, patriotismo e respeito aos símbolos nacionais mas que, com o tempo, também passou a incorporar a cultura e a memória nordestinas.
Uma escola que virou memória da cidade
Fundado em 1970, o Colégio Dom Vital atravessou gerações e se tornou parte da história educacional de Paranatama. Ao longo das décadas, professores, estudantes, servidores e famílias ajudaram a construir uma memória que ultrapassa os limites físicos da instituição.
Entre as décadas de 1970 até meados de 2013, segundo relata um ex-aluno: "Os desfiles cívicos tinham forte presença na vida comunitária!" Ainda acrescenta: "Atualmente as apresentações cívicas estão "tímidas" e precisam ressuscitar, mostrar seu vígor e a bravura que está escondida no gene dos Paranatamenses". Continua: "A semana da Pátria mobilizava escolas, famílias, autoridades e moradores, transformando as ruas em uma extensão da sala de aula, uniformes, bandeiras, hinos, pelotões e bandas compunham uma espécie de ritual coletivo, o corpo também era educado: aprender a marchar significava aprender a obedecer regras, respeitar hierarquias e fazer parte de um grupo".
Patriotismo ou obediência?
É justamente nesse ponto que a memória precisa ser analisada com senso crítico.
Os desfiles escolares brasileiros foram fortemente associados, sobretudo durante e após o período da ditadura militar, a valores como civismo, patriotismo, disciplina e ordem. Para parte daquela geração, isso representava educação, respeito e formação cidadã.
Para as gerações atuais, entretanto, permanece uma pergunta necessária:
Onde terminava a disciplina e começava a obediência automática?
Questionar esse passado não significa apagar sua importância. Significa compreendê-lo dentro do contexto histórico em que foi produzido.
Quando Pernambuco entrou na marcha
Há, porém, outra dimensão dessa história.
Pernambuco nunca foi apenas uma representação de símbolos oficiais. Frevo, maracatu, ciranda, coco, caboclinho, forró, reisado, literatura de cordel e bandas de música fazem parte de uma identidade cultural construída ao longo de gerações.
Por isso, quando os estudantes de Paranatama ocupavam as ruas, também carregavam elementos do Pernambuco vivido no cotidiano: a feira, a agricultura, a música, a religiosidade, o sertanejo, o vaqueiro e as tradições familiares.
Um exemplo dessa transformação aparece em 2012, quando o Dom Vital desenvolveu projeto em homenagem aos 100 anos de Luiz Gonzaga.
A escolha é simbólica.
A escola que ensinava a amar o Brasil também começava a ensinar que conhecer a própria terra é uma forma de exercer cidadania.
A memória também precisa de documentos
A história do Dom Vital é feita de pessoas. Professores e gestores ocupam lugar importante nessa memória, entre eles nomes lembrados pela comunidade, como Dr. Arnaldo,Valdirene, Aldo Fernando Costa e Silva, Dr. Flávio, Dr. Edson, Vilma Paiva , Gildete Bento, Josemar Brandão e Joselita Bezerra.
Aldo iniciou sua gestão no ano de 1972 e finalizou em 1984. No caso de Joselita Bezerra Vasconcelos, registros públicos mencionados no material histórico confirmam sua vinculação institucional ao Conselho Escolar do Dom Vital desde 2005.
Breve o ParanatamaNews fará um levantamento historiográfico das principais escolas do município para compor uma segunda versão de reportagem especial.
O que ficou nas ruas?
Talvez o maior legado dos antigos desfiles não esteja na marcha, mas na memória.
A professora que ensaiava os alunos. O uniforme preparado pela família. A bandeira carregada pelo estudante. A banda anunciando a passagem do cortejo. As ruas cheias. O silêncio antes do hino.
Tudo isso também faz parte da educação.
Hoje, a sociedade mudou e o significado do patriotismo também.
A questão não é decidir se o passado foi melhor ou pior. É entender o que ele ensinou e decidir o que merece permanecer.
Tradição não precisa ser repetição.
Tradição é receber uma herança, compreender seu significado e escolher conscientemente o que deve continuar.
E talvez essa seja uma das maiores lições deixadas pelo Dom Vital: uma escola pode ensinar dentro da sala de aula, mas também pode ensinar uma cidade inteira quando ocupa suas ruas.