Eduardo Bolsonaro sugere trocar Pix pelo Zelle dos EUA ou ceder terras raras em negociação comercial

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) sugeriu, nesta quinta-feira (5/6), que o Brasil negocie com os Estados Unidos uma troca do Pix pelo sistema de pagamentos norte-americano Zelle ou, em alternativa, ceda aos EUA a exclusividade nas terras raras brasileiras para manter o sistema de pagamentos instantâneos nacional. A declaração ocorre em momento de alta tensão comercial, com os EUA concluindo investigação da Seção 301 que prevê tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e apontando o Pix como uma das práticas consideradas "injustas ou discriminatórias". Por Redação Paranatama News 05 de junho de 2026 | Atualizado às 17h40

Eduardo Bolsonaro sugere trocar Pix pelo Zelle dos EUA ou ceder terras raras em negociação comercial

O que Eduardo Bolsonaro propôs

Em vídeo publicado nas redes sociais, o filho "03" do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou que os Estados Unidos possuem mecanismos semelhantes ao Pix, como o Zelle, e que isso abre espaço para uma negociação bilateral. "É o PIX dos Estados Unidos, aqui é o Zelle. Então dá pra você ir pra uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos. Dá pra você sentar, dá pra negociar", disse Eduardo Bolsonaro.

O Zelle é uma rede de pagamentos instantâneos dos Estados Unidos que permite transferências entre contas bancárias de forma integrada aos aplicativos das instituições financeiras, sem cobrança de taxas para pessoas físicas, desde que o valor esteja dentro do limite diário  geralmente entre US$ 500 e US$ 2.500, dependendo do banco. Transferências para contas comerciais, no entanto, podem estar sujeitas à cobrança de tarifas. Diferentemente do Pix, que é operado pelo Banco Central do Brasil e disponibilizado gratuitamente aos usuários, o Zelle é administrado por um consórcio privado de bancos norte-americanos, liderado pela Early Warning Services, empresa pertencente a instituições como JPMorgan Chase, Bank of America e Wells Fargo.

A contraproposta: terras raras em troca do Pix

Na visão do ex-deputado, existe uma possibilidade de troca de interesses que beneficiaria ambos os países. "Eles têm interesses onde as nossas economias se complementam. Como, por exemplo, terras raras. Manganês, que os Estados Unidos importam 100% do manganês, e o Brasil é um grande produtor de manganês", afirmou. A sugestão de ceder exclusividade sobre terras raras brasileiras em troca da manutenção do Pix representa uma proposta inédita no cenário político nacional e levanta debates sobre soberania econômica e estratégia de negociação internacional.

O Brasil detém aproximadamente 23% das reservas mundiais de terras raras, ocupando a segunda posição global nesse quesito, atrás apenas da China. No entanto, a produção brasileira ainda é incipiente: o país responde por apenas 1% da produção mundial desses elementos. Em 2023, as exportações brasileiras de produtos de terras raras totalizaram US$ 1,4 milhão, registrando retração de 64,1% em relação ao ano anterior. Já as importações somaram US$ 11,5 milhões, tendo a China como principal fornecedora (51,4%) e os Estados Unidos em segundo lugar (16,3%).

No que tange ao manganês, o Brasil é um dos principais produtores mundiais, respondendo por cerca de 6,6% da produção global em 2012, com o estado do Pará concentrando 84% da produção nacional. O mineral é estratégico para a indústria siderúrgica e, na economia verde, para a produção de baterias de veículos elétricos. Os EUA dependem de importações para suprir sua demanda de manganês.

Contexto: sanções comerciais dos EUA e a Seção 301

A manifestação de Eduardo Bolsonaro ocorre em meio à expectativa de que os Estados Unidos imponham sanções comerciais ao Brasil. A preocupação ganhou força após a conclusão, em 29 de maio de 2026, da investigação do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O USTR determinou que uma série de atos, políticas e práticas do Brasil são "injustos ou discriminatórios" e oneram o comércio norte-americano. Entre as áreas apontadas estão:

Comércio digital e serviços de pagamento eletrônico incluindo políticas que favorecem o Pix como "campeão nacional" em detrimento de empresas norte-americanas;

Tarifas preferenciais injustas acordos com México e Índia;

Proteção de propriedade intelectual;

Acesso ao mercado de etanol;

Desmatamento ilegal;

Enfrentamento à corrupção.

Como ação proposta, o USTR sugeriu a imposição de tarifas adicionais de 25% sobre todos os produtos brasileiros, com algumas exceções. O prazo para comentários públicos encerra em 1º de julho de 2026, e uma audiência pública está marcada para 6 de julho de 2026. O prazo legal para a adoção de medidas retaliatórias é 15 de julho de 2026.

O governo brasileiro manifestou indignação com a conclusão preliminar do USTR. Em nota oficial, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) classificou a investigação como uma tentativa de imposição unilateral de sanções comerciais.

Reação de Flávio Bolsonaro

Na terça-feira (2/6), o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), irmão de Eduardo, enviou uma carta ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, pedindo que o governo norte-americano não aplique tarifas comerciais ao Brasil.

Na correspondência, Flávio manifestou preocupação com o avanço da investigação do USTR, além de agradecer pela classificação das facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas. O senador sustentou que novas taxas seriam prejudiciais à economia nacional, fundamentando sua tese no endividamento público crescente, na alta inadimplência e no volume sem precedentes de pedidos de recuperação judicial. Segundo Flávio, punições alfandegárias prejudicariam diretamente a população brasileira.

Resposta do governo Lula e a "guerra dos cartazes"

A pressão comercial norte-americana não passou despercebida pelo governo federal. Na terça-feira (2/6), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) exibiu, durante um evento em Goiás, um cartaz com os dizeres: "o Pix é do Brasil".

Na quarta-feira (3/6), o senador Flávio Bolsonaro respondeu à manifestação presidencial ao mostrar, em um evento na Grande BH, um cartaz com a frase: "Pix é do Brasil e do Bolsonaro", reivindicando a paternidade do sistema de pagamentos instantâneos, criado durante o governo de seu pai.

A troca de provocações entre o Planalto e a família Bolsonaro evidencia a dimensão política do debate, que extrapola a esfera técnica e adquire contornos eleitorais às vésperas das eleições de 2026.

O que está em jogo: soberania, economia e eleições

A sugestão de Eduardo Bolsonaro coloca em debate questões estratégicas para o Brasil: a soberania sobre o sistema financeiro nacional, a exploração de recursos minerais estratégicos e a relação comercial com os Estados Unidos.

O Pix, implementado em novembro de 2020 pelo Banco Central, tornou-se um dos sistemas de pagamentos instantâneos mais utilizados do mundo. Em janeiro de 2026, o sistema registrou mais de 7 bilhões de transações, movimentando mais de R$ 3 trilhões em um único mês. Mais de 170 milhões de pessoas físicas cerca de 80% da população brasileira já se cadastraram no sistema.

Em 2024, 63% dos brasileiros utilizaram o Pix ao menos uma vez por mês, segundo estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV). A média nacional de transações por usuário foi de 32 operações mensais, com valor médio de R$ 190,57 por transação. O sistema já é a forma de pagamento mais utilizada no país, superando cartões, dinheiro e boletos.

A possibilidade de sanções comerciais dos EUA representa um risco significativo para a economia brasileira, que mantém os Estados Unidos como um de seus principais parceiros de exportação. A negociação proposta por Eduardo Bolsonaro, embora controversa, reflete a busca por alternativas diante de um cenário de incerteza.

Analistas de relações internacionais consultados por este veículo sob condição de anonimato, dada a sensibilidade do tema avaliam que a proposta de "troca" do Pix pelo Zelle enfrentaria barreiras técnicas e jurídicas enormes. "O Pix é uma infraestrutura pública, regulada e operada pelo Banco Central. O Zelle é uma iniciativa privada de bancos norte-americanos. São modelos completamente distintos", afirmou um especialista em sistemas de pagamento.

Já a sugestão de ceder exclusividade sobre terras raras levanta questionamentos sobre a Lei nº 9.478/1997 (Lei do Petróleo) e o Decreto nº 7.274/2010, que estabelecem que a União detém o monopólio sobre recursos minerais estratégicos. Qualquer cessão de exclusividade demandaria alteração legislativa e aprovação do Congresso Nacional.