El Niño 2026 tem 90% de chance de ocorrer e coloca Brasil em alerta para seca e enchentes
Nota técnica conjunta de INPE, INMET, FUNCEME e CENSIPAM aponta aquecimento anômalo no Pacífico Equatorial e alerta para eventos climáticos extremos que podem se estender até o início de 2027. Por Redação Paranatama News. 24 de junho de 2026 | Atualizado às 11h56
Imagem foto divulgação/NOAA
O Brasil deve se preparar para um novo episódio de El Niño. Uma nota técnica conjunta elaborada por quatro dos principais institutos meteorológicos do país INPE, INMET, FUNCEME e CENSIPAM aponta probabilidade superior a 80% de o fenômeno se configurar ao longo do segundo semestre de 2026, com chance de persistir até, pelo menos, o início de 2027.
O alerta, divulgado em abril deste ano, baseia-se em dados de monitoramento oceânico-atmosférico e em previsões de modelos climáticos globais que indicam aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial, condição precursora do evento.
A nota técnica sobre o El Niño 2026, traz um diagnóstico detalhado das condições atuais do oceano, prognósticos de modelos climáticos e uma análise dos potenciais impactos em cada região do Brasil. A mensagem é clara: os sinais são consistentes, a tendência é de intensificação e a população e os gestores públicos precisam se preparar.
O Que é o El Niño e Por Que Ele Importa para o Brasil
O El Niño–Oscilação Sul (ENOS) é um sistema oceânico-atmosférico acoplado que ocorre na região do oceano Pacífico Equatorial. Ele é caracterizado por variações anômalas na temperatura da superfície do mar (TSM) e na circulação atmosférica adjacente. O El Niño corresponde à fase quente do fenômeno, marcada pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico em relação à média climatológica.
Já a La Niña representa a fase fria, associada ao resfriamento dessas mesmas águas. Conforme registrado historicamente, o El Niño pode provocar impactos marcantes nos padrões de precipitação e na temperatura do ar em grande parte do território brasileiro.
A nota técnica alerta que extremos climáticos associados ao fenômeno podem afetar o abastecimento de água, a segurança alimentar, a geração de energia, a mobilidade, a saúde pública e as atividades produtivas em diferentes regiões do país.
Diagnóstico: O Oceano Já Mostra os Sinais
A análise das condições atuais do ENOS é realizada por meio do Índice Oceânico Niño Relativo (RONI), que mede a diferença entre a anomalia de TSM na região Niño 3.4 porção central do Pacífico Equatorial e a anomalia média global de TSM na faixa entre 20°N e 20°S. Episódios de El Niño são caracterizados quando o RONI atinge valores iguais ou superiores a +0,5°C por, no mínimo, cinco trimestres consecutivos.
Os dados históricos apresentados na nota técnica revelam uma elevada variabilidade interanual do ENOS nos últimos anos. Destaca-se um episódio prolongado de La Niña entre abril de 2020 e março de 2023, seguido por um evento de El Niño entre junho de 2023 e abril de 2024.
Posteriormente, um novo episódio de La Niña se desenvolveu a partir de maio de 2024, persistindo até o trimestre fevereiro–março–abril (FMA) de 2026.
A avaliação dos mapas de anomalias de TSM para abril de 2026 mostra que as anomalias negativas de temperatura no Pacífico Equatorial reduziram-se de forma marcante, evoluindo para áreas com valores próximos à média climatológica e ocorrência de anomalias positivas superiores a 0,5°C.
O aquecimento é particularmente intenso nas regiões Niño 1+2 (próximas à costa oeste da América do Sul) e nas regiões Niño 3 e Niño 4, com desvios superiores a 3°C em áreas costeiras do Pacífico sul-americano. Esse padrão é consistente com condições iniciais de desenvolvimento do El Niño.
"As anomalias positivas de temperatura subsuperficial indicam a presença e a propagação de águas mais quentes que a média, configurando um importante sinal precursor para o desenvolvimento do El Niño."
Nota Técnica El Niño 2026, INPE/INMET/FUNCEME/CENSIPAM.
As camadas subsuperficiais do oceano reforçam essa tendência. Mapas de anomalias de temperatura até 300 metros de profundidade mostram valores superiores a 2°C em ampla faixa que se estende do Pacífico central até as proximidades da costa oeste da América do Sul, atingindo localmente mais de 4°C. Esse conteúdo de calor subsuperficial é um dos principais indicadores de que o aquecimento na superfície deve se intensificar nos próximos meses.
Prognóstico: Modelos Indicam El Niño Forte no Horizonte
As previsões sazonais de anomalias de TSM foram avaliadas por meio de quatro conjuntos de modelos climáticos dinâmicos globais: OMM (Organização Meteorológica Mundial), C3S (Copernicus Climate Change Service), NMME (North American Multi-Model Ensemble) e APCC (APEC Climate Center).
Todos os quatro conjuntos indicam o possível estabelecimento de anomalias positivas de TSM no Pacífico Equatorial com características espaciais consistentes com a condição de El Niño. Dados complementares do Climate Prediction Center (CPC), vinculado à NOAA, divulgados no início de abril de 2026, apontam aproximadamente 61% de probabilidade para a ocorrência de El Niño no trimestre maio–junho–julho (MJJ) de 2026, com persistência e aumento de probabilidade superior a 90% até o final de 2026 e início de 2027.
"Os dados observacionais e os resultados dos modelos de previsão indicam alta probabilidade de estabelecimento de um evento de El Niño ao longo do segundo semestre de 2026."
Nota Técnica El Niño 2026.
Embora a intensidade do evento ainda não esteja claramente definida, a nota técnica destaca que as características identificadas no diagnóstico, especialmente o elevado conteúdo de calor nas águas subsuperficiais do Pacífico Equatorial, sugerem condições favoráveis ao desenvolvimento de um episódio de pelo menos intensidade moderada.
Impactos por Região: O Que Esperar de Cada Parte do Brasil
Norte - Amazônia em Risco de Seca Severa e Incêndios
A região Norte, e especialmente a Amazônia Legal, deve enfrentar aumento do risco de fogo e redução do nível dos rios. Uma estação seca mais prolongada, combinada com temperaturas acima da média e baixos níveis de umidade relativa do ar, favorece condições de maior vulnerabilidade dos biomas amazônicos à ocorrência e propagação de incêndios florestais.
Eventos anteriores associados ao El Niño evidenciam esse comportamento.
A seca de 2015 elevou a inflamabilidade da floresta e das áreas agrícolas no leste e sul da Amazônia, com aumento de cerca de 36% na incidência de fogo em relação à média dos 12 anos anteriores. A redução do nível dos rios afeta diretamente setores estratégicos, como a geração de energia hidrelétrica, a atividade pesqueira e a produção agrícola.
A diminuição da navegabilidade compromete o acesso de populações ribeirinhas e remotas a serviços essenciais, como abastecimento de água, alimentos e atendimento de saúde.
"A dependência da matriz energética brasileira de fontes hídricas, associada ao aumento da demanda energética em períodos de temperaturas elevadas, pode agravar os impactos sobre o sistema elétrico."
Nota Técnica El Niño 2026
No entanto, a nota técnica ressalta que as condições do Oceano Atlântico Tropical também desempenham papel relevante na modulação do regime de chuvas na Amazônia.
No cenário atual, são previstas anomalias positivas de TSM na bacia sul do Atlântico Tropical, o que pode atenuar os efeitos típicos de estiagem na porção leste da região. Ainda assim, a magnitude desse efeito é incerta devido à elevada variabilidade natural das TSM do Atlântico.
Nordeste Seca, Calor e Risco de Incêndios em Ecossistemas
A configuração de um possível evento El Niño poderá promover alterações termodinâmicas de escala planetária com impacto no balanço hídrico e radiativo da Região Nordeste. O fenômeno pode inibir a ascensão de parcelas de ar e o desenvolvimento de sistemas convectivos, resultando em reduzidos acumulados pluviométricos com maior probabilidade de ocorrência de chuvas abaixo da faixa normal climatológica.
Simultaneamente, a redução da nebulosidade e o incremento da irradiância solar à superfície favorecem o aumento das temperaturas médias e máximas, elevando a demanda evaporativa.
A sinergia entre o déficit de chuva e a elevada evapotranspiração acelera o estresse hídrico da biomassa, reduzindo o teor de umidade do material combustível e, consequentemente, ampliando a susceptibilidade e o risco de propagação de incêndios florestais em ecossistemas da região.
Centro-Oeste Temperaturas Elevadas e Chuvas Irregulares
A Região Centro-Oeste não apresenta correlação elevada com episódios de El Niño ou La Niña, mas há uma tendência de temperaturas mais elevadas durante todo o período, principalmente durante a primavera e o verão nos estados do Mato Grosso, Goiás e no Distrito Federal. A elevação das temperaturas durante o final do inverno e a primavera contribui para a diminuição da umidade relativa do ar, elevando o risco de incêndios.
Em períodos de El Niño forte, observações empíricas sugerem maior regularidade nas chuvas, com volumes significativos nos meses de verão e outono no Mato Grosso do Sul e em parte de Goiás, enquanto o norte da região apresenta maior irregularidade na frequência e na distribuição espacial das chuvas.
Sudeste Chuvas Variáveis e Ondas de Calor Mais Frequentes
Os impactos do El Niño sobre a chuva no Sudeste tendem a ser mais variáveis do que em outras regiões do Brasil. As condições podem dificultar a formação e organização da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), deslocando-a mais para o sul de sua posição climatológica. Isso favorece anomalias positivas de chuva no sudeste de São Paulo, centro-sul do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, enquanto reduz a intensidade sobre áreas mais ao norte.
Dependendo da intensidade do fenômeno e da atuação de outros sistemas atmosféricos, podem ocorrer episódios de estiagem e ondas de calor.
Em relação às temperaturas, os efeitos mais comuns incluem o aumento das temperaturas médias, principalmente durante a primavera e o verão, decorrente da intensificação do jato subtropical e do bloqueio de frentes frias, que tendem a manter as massas de ar polar mais restritas ao sul.
Sul Chuvas Acima da Média e Risco de Enchentes
Na Região Sul, os efeitos do El Niño incluem chuvas acima da média e não se descarta a possibilidade de ocorrência de eventos extremos comumente associados a inundações. Essas condições resultam do fortalecimento da corrente de jato subtropical e dos jatos de baixos níveis. O transporte mais intenso de umidade da região amazônica para os subtrópicos favorece a organização de sistemas convectivos de mesoescala e a formação de ciclones extratropicais mais intensos. Sobre as temperaturas, a Região Sul tende a registrar valores acima da média, principalmente no inverno e na primavera. As massas de ar frio podem perder intensidade ou duração, reduzindo a frequência de geadas severas e de ondas de frio prolongadas.
Preparação é a Palavra-Chave
A nota técnica conclui que, no segundo semestre de 2026, existe alta probabilidade de um evento de El Niño se estabelecer, com chance de atingir, pelo menos, intensidade moderada. Esse padrão tende a favorecer a ocorrência de déficit de precipitação na Amazônia, especialmente em sua porção leste, e de volumes acima da média na Região Sul do Brasil.
Os impactos associados ao fenômeno poderão variar em intensidade e distribuição espacial, em função da interação com outros sistemas climáticos, como as condições do Atlântico Tropical, bem como da variabilidade natural do sistema climático global.
"Reforça-se a importância do monitoramento contínuo das condições oceânicas e atmosféricas, visando subsidiar ações de planejamento, mitigação e resposta frente aos possíveis impactos socioeconômicos."
Nota Técnica El Niño 2026
Os institutos alertam que, em relação à ocorrência de eventos extremos como tempestades, enchentes e tempo seco , é fundamental acompanhar as previsões em escalas subsaisonal e de tempo disponíveis nos canais de divulgação do INPE, INMET, FUNCEME e CENSIPAM.