Morre Feliciano Popó, intérprete de Zé Leitão em 'Ai Que Vida', aos 81 anos

De garimpeiro em Serra Pelada a ícone do cinema popular nordestino, humorista maranhense falece em Açailândia e deixa legado de humor e identidade regional. Por Redação Paranatama News. 27 de junho de 2026 | Atualizado às 18h08

Morre Feliciano Popó, intérprete de Zé Leitão em 'Ai Que Vida', aos 81 anos

Imagem: foto/divulgação

O cinema nordestino está de luto. O cinema nordestino está de luto. Morreu na última quinta-feira (25), aos 81 anos, o ator e humorista Feliciano Popó, eternizado pelo papel do prefeito Zé Leitão no filme "Ai que Vida"O artista sofreu um infarto em Açailândia, no Maranhão, onde residia em uma comunidade rural.

As informações divulgadas pela família e por pessoas próximas indicam que o ator e humorista Feliciano Popó foi sepultado na sexta-feira, 26 de junho de 2026, às 17h30, em um cemitério da comunidade rural onde morava, em Açailândia (MA).

No entanto, o nome oficial do cemitério não foi informado publicamente.

De Poção das Pedras ao cinema: a trajetória de um artista autodidata

Natural de Pedro II, no Piauí, Feliciano Popó cresceu no município de Poção das Pedras, no Maranhão, e construiu sua carreira a partir de uma trajetória marcada pelo trabalho braçal e pela perseverança. Antes de despontar no mundo artístico, ele trabalhou em fazendas realizando serviços pesados e também atuou como vigilante noturno.

A virada em sua vida veio quando foi trabalhar como garimpeiro em Serra Pelada, no Pará. Foi lá, no epicentro do maior garimpo a céu aberto do mundo, que Popó teve sua primeira experiência no cinema como figurante no longa Os Trapalhões na Serra Pelada, ao lado de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. A projeção definitiva, no entanto, viria anos depois, quando o diretor Cícero Filho o convidou para dar vida a Zé Leitão em Ai Que Vida (2007), filme que se tornaria o maior sucesso de sua carreira e um marco do cinema popular nordestino.

Zé Leitão: o prefeito caricato que virou fenômeno cultural

No filme Ai Que Vida, dirigido por Cícero Filho, Feliciano Popó interpretou o prefeito Zé Leitão, um administrador corrupto e há quatro anos no poder que pouco fez pela fictícia cidade de Poço Fundo, no interior do Nordeste. O personagem, marcado pelo humor simples, caricato e fortemente ligado ao cotidiano político do interior, conquistou o público com sua atuação carismática e espontânea.

A trama acompanha a revolta da microempresária Cleonice da Cruz Piedade (Toinha Catingueiro), que decide concorrer ao cargo de prefeita para lutar por melhorias na cidade. Nos bastidores, um triângulo amoroso envolve Jerod (Welligton Alencar), Valdir (Rômulo Augusto) e Charleni (Irisceli Queiroz). O filme aborda temas como filantropia, caráter, ética, amor e, principalmente, a "politicagem" no interior do Brasil, contribuindo de maneira crítica embora não panfletária para a valorização da cidadania.

Com orçamento de apenas R$ 30 mil, Ai Que Vida se tornou um verdadeiro fenômeno do cinema independente nordestino, circulando por anos em DVDs, redes sociais e canais de streaming, onde cenas do filme continuam viralizando e conquistando novas gerações de fãs.

Últimos dias: saúde debilitada e apelo por ajuda

Nas duas semanas que antecederam sua morte, Feliciano Popó havia demonstrado sinais de fragilidade. No dia 14 de junho, ele compartilhou um vídeo nas redes sociais pedindo ajuda para adquirir um aparelho auditivo, após relatar problemas de saúde. Na gravação, o ator mencionava ter sofrido um quadro de labirintite e perda auditiva.

"Meus amigos, aqui está um grande amigão de vocês. Eu tive um problema agora, adoeci, né? Tive labirintite, deu um problema e agora eu 'tô' surdo. Estou fazendo uma campanha, devagarzinho, para comprar esse aparelho, que custa R$ 12 mil. A todos os amigos que puderem me ajudar, me patrocinar. Um beijão e um abraço do Zé Leitão, do filme Ai Que Vida", disse o ator na ocasião.

No dia de sua morte, o artista passou mal na comunidade rural onde vivia e foi socorrido pela esposa até uma unidade hospitalar em Açailândia. Ao chegar ao local, no entanto, já não apresentava sinais vitais. A causa do falecimento, embora ainda não confirmada oficialmente, está relacionada a um infarto.

Reações: homenagens de colegas e da produção

A notícia da morte rapidamente repercutiu nas redes sociais, onde fãs, amigos e admiradores prestaram homenagens ao artista. A atriz Irisceli Queiroz, que interpretou Charlene no longa, lamentou a perda do colega:

"Estou muito triste com essa notícia. Que Deus conforte o coração de dona Maria e toda a sua família. Que você seja recebido com muita festa e alegria no céu. Nosso encontro não deu certo nesse plano, mas quem sabe em outro", escreveu.

A produtora TvM Filmes, responsável por Ai Que Vida, divulgou nota de pesar destacando a importância do ator para a obra:

"É com imenso pesar que a TvM FILMES recebe a notícia do falecimento do querido ator Feliciano Popó, inesquecível intérprete do prefeito Zé Leitão, personagem que marcou para sempre a história do nosso filme 'Ai Que Vida', o maior sucesso da nossa trajetória. Feliciano deixa um legado que permanecerá vivo na memória do cinema nordestino e no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e de rir com seu inesquecível personagem. Descanse em paz, querido amigo. Sua arte será eterna."

O diretor Cícero Filho também se manifestou:

"Feliciano deixa um legado que permanecerá vivo na memória do cinema nordestino e no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e de rir com seu inesquecível personagem."

Legado além de Zé Leitão

Além do papel que o consagrou, Feliciano Popó acumulou participações em diversas produções independentes que movimentaram o cinema local e regional, tais como:

"Dê uma Xânxa ao Amor" (também dirigido por Cícero Filho);

"No Tempo da Besteira" (de Derleon e Itamar Lima);

"Os Caipiras em Busca de um Sonho" (de Hélio Amaral);

"Moleque Té Doido 3 e 4" (de Erlanes Duarte);

"O Incrédulo" (gravado em Marabá-PA);

"Agora Bem Aí Minha Cara Racha (Os Aventureiros)".

Seu trabalho permaneceu vivo ao longo dos anos, impulsionado pela circulação de cenas nas redes sociais e pela memória afetiva dos fãs. Com sua partida, o Maranhão, o Piauí e todo o Nordeste perdem um artista que contribuiu de forma significativa para a cultura regional, deixando um legado de humor e identidade popular que continuará a ecoar entre as novas gerações.