Raquel Lyra no MST: encontro reservado expõe as contradições da disputa eleitoral em Pernambuco

Governadora recebeu carta de reivindicações na Fazenda Normandia, em Caruaru, mas ausência de divulgação nas redes provocou reações simultâneas da direita e da esquerda. Por Reginaldo Bezerra. 10 de setembro de 2026 | Atualizado às 18h20

Raquel Lyra no MST: encontro reservado expõe as contradições da disputa eleitoral em Pernambuco

Imagem | Foto | MST | Divulgação

A visita da governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) à Fazenda Normandia, em Caruaru, sede simbólica do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Pernambuco, abriu uma nova frente de tensão na corrida eleitoral de 2026. O encontro ocorreu na última sexta-feira (4), mas não foi divulgado nas redes sociais nem pela governadora nem pelo movimento, circunstância que alimentou críticas de setores da direita e da esquerda. A agenda ganha peso político porque Raquel mantém posição de não declarar voto para a Presidência, enquanto o MST é alinhado à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva e há orientação do movimento em Pernambuco para apoiar João Campos (PSB) na disputa estadual.

Uma agenda que aconteceu mas quase não apareceu

O episódio chama atenção menos pela existência do encontro do que pela maneira como ele foi tratado publicamente.

Raquel Lyra esteve na Fazenda Normandia para receber uma carta com propostas relacionadas à reforma agrária, assentamentos, acampamentos e políticas públicas voltadas ao campo. A governadora estava acompanhada dos candidatos ao Senado Eduardo da Fonte (PP) e Túlio Gadêlha (PSD).

O coordenador do MST em Pernambuco, Jaime Amorim, deixou claro que a entrega do documento não significava apoio eleitoral à governadora. Segundo o dirigente, o movimento mantém sua atuação política e reivindicatória independentemente de quem esteja no governo.

Na prática, portanto, houve diálogo institucional, mas não uma declaração de aliança eleitoral.

A ausência de registros nas redes, entretanto, criou uma espécie de segundo acontecimento: o encontro passou a ser interpretado politicamente justamente porque não recebeu a mesma exposição pública normalmente associada a uma agenda de campanha. A reportagem do UOL informou que a assessoria de Raquel foi procurada para explicar a ausência de divulgação, mas não havia respondido até a publicação.

Por que o encontro incomodou a direita?

A Fazenda Normandia não é um espaço politicamente neutro.

O local é um dos principais símbolos do MST em Pernambuco e está diretamente associado à história da reforma agrária no estado. Para setores conservadores que apoiam Raquel, a presença da governadora naquele ambiente provocou questionamentos sobre sua identidade política.

A contradição é evidente: Raquel disputa a reeleição com forte apoio de setores do bolsonarismo pernambucano, mas também procura manter uma relação institucional com movimentos e grupos historicamente identificados com a esquerda.

O questionamento passou a ser: afinal, qual é o posicionamento político da governadora?

A resposta, até aqui, parece estar justamente na estratégia adotada por Raquel: evitar uma identificação rígida com os polos nacionais e construir uma candidatura centrada no governo estadual.

Essa estratégia, entretanto, tem um custo.

Ao tentar conversar simultaneamente com eleitorados politicamente distantes, a candidata pode conquistar capacidade de diálogo, mas também corre o risco de provocar desconfiança nos dois lados.

E por que a esquerda também reagiu?

O desconforto não ficou restrito ao campo conservador.

O MST tem uma relação histórica com o campo político de Lula e, segundo a apuração publicada pelo UOL, existe orientação do movimento em Pernambuco para que seus integrantes façam campanha para João Campos, embora o próprio movimento tenha divisões internas e não haja consenso absoluto em torno do socialista.

Nesse cenário, a recepção de Raquel na Fazenda Normandia produziu questionamentos entre setores da esquerda.

A questão deixou de ser simplesmente "o MST recebeu Raquel?" e passou a ser outra: até que ponto um movimento alinhado historicamente ao campo lulista pode receber uma candidata que conta com apoio de setores do bolsonarismo sem criar ruído dentro de sua própria base?

O próprio MST procurou marcar distância de uma eventual interpretação de apoio.

Depois das críticas, o movimento divulgou registros de encontros com João Campos e Ivan Moraes (PSOL), reforçando a ideia de que a entrega de reivindicações aos candidatos não equivale, necessariamente, a uma adesão eleitoral.

A estratégia de Raquel: dialogar com polos diferentes

A movimentação precisa ser compreendida dentro de uma campanha eleitoral particularmente competitiva.

Raquel Lyra não construiu sua candidatura exclusivamente a partir da polarização nacional entre direita e esquerda. Durante seu governo, manteve interlocução com o governo Lula e adotou discurso menos ideológico em comparação com outros nomes do campo conservador.

Ao mesmo tempo, sua candidatura passou a receber apoio significativo de setores ligados ao bolsonarismo.

É justamente nessa zona intermediária que a governadora tenta construir vantagem eleitoral.

O problema é que a eleição de 2026 não acontece em um ambiente politicamente neutro.

A polarização nacional atravessa a disputa estadual. Lula apoia João Campos, enquanto setores importantes da direita apoiam Raquel. Qualquer gesto de aproximação com um dos campos pode ser interpretado como mudança de posição pelo outro.

A visita ao MST expôs essa fragilidade.

O fator eleitoral

O contexto das pesquisas ajuda a explicar por que uma agenda como essa pode adquirir dimensão estratégica.

Pesquisa Quaest divulgada em 8 de setembro mostra Raquel Lyra com 43% das intenções de voto, contra 37% de João Campos no cenário estimulado para o governo de Pernambuco. A margem de erro é de três pontos percentuais. O levantamento ouviu 1.302 eleitores entre os dias 4 e 7 de setembro e foi registrado no TSE sob o número PE-00285/2026.

Ou seja, trata-se de uma disputa na qual nenhum movimento de campanha pode ser considerado irrelevante.

A busca por eleitores fora do núcleo tradicional de cada candidatura tende a ganhar importância à medida que a eleição se aproxima.

É nesse ambiente que aparece o chamado voto "Luquel", expressão utilizada para descrever a combinação de voto em Lula para presidente e Raquel para governadora.

Embora não represente necessariamente uma organização política formal, o fenômeno revela uma possibilidade eleitoral importante: parte do eleitorado pode separar a escolha presidencial da escolha para o governo estadual.

O problema da imagem

Mais do que a presença de Raquel no MST, a questão central do episódio talvez esteja na comunicação política.

Em uma campanha dominada pelas redes sociais, esconder ou simplesmente não divulgar uma agenda relevante pode produzir o efeito contrário ao desejado.

O que poderia ser apresentado como demonstração de diálogo institucional acabou transformado em assunto político justamente pela ausência de comunicação oficial.

O MST também enfrentou problema semelhante.

Ao não divulgar inicialmente a presença de Raquel e posteriormente publicar registros com outros candidatos, o movimento abriu espaço para interpretações sobre constrangimento político ou tentativa de evitar desgaste com sua própria base.

Em política, o silêncio também comunica.

E, neste caso, comunicou mais do que os próprios participantes provavelmente pretendiam.

Um encontro sem aliança mas com significado político

É importante separar duas coisas.

A entrega de uma carta de reivindicações não significa apoio eleitoral. O coordenador do MST deixou essa posição explícita. Da mesma forma, a presença de Raquel na Fazenda Normandia não significa que a governadora tenha aderido às pautas políticas do movimento.

O significado está em outro lugar.

Raquel decidiu entrar em um território político identificado com seus adversários e pedir diálogo com um eleitorado que não constitui, historicamente, seu núcleo mais evidente de apoio.

Isso é estratégia eleitoral.

E o MST, ao receber a governadora, também demonstrou disposição para dialogar com quem ocupa ou pretende ocupar o Palácio do Campo das Princesas.

Isso é atuação política.

Nenhum dos dois lados precisa abandonar suas posições para conversar.

O que pode acontecer daqui para frente

O episódio dificilmente será suficiente, sozinho, para modificar a estrutura da eleição. Mas ele revela uma tendência que deverá se intensificar nas próximas semanas: a disputa por eleitores que não se encaixam perfeitamente nos blocos tradicionais da política pernambucana.

Raquel precisa ampliar sua base sem perder o eleitorado de direita que passou a enxergá-la como alternativa competitiva.

João Campos, por sua vez, precisa transformar o apoio de Lula e de setores da esquerda em votos efetivos no interior e entre eleitores que podem separar a escolha presidencial da estadual.

O MST também terá de administrar sua própria equação: manter sua identidade política, defender suas pautas e, simultaneamente, lidar com uma base que não necessariamente segue integralmente as orientações de suas lideranças.

A eleição de Pernambuco está deixando de ser apenas uma disputa entre dois candidatos. É também uma disputa pela capacidade de cada candidatura de atravessar fronteiras ideológicas.

A visita de Raquel Lyra à Fazenda Normandia mostrou exatamente isso.

O encontro não produziu uma aliança entre Raquel e o MST. Produziu algo politicamente mais interessante: a demonstração de que, em uma eleição apertada, os limites entre adversários, aliados e interlocutores podem ficar muito mais flexíveis.

E, até outubro, cada gesto será observado sob essa lente.