Super El Niño coloca Brasil em alerta; agricultores do agreste de Pernambuco temem impactos da irregularidade das chuvas

Especialistas monitoram a possibilidade de um dos eventos climáticos mais intensos das últimas décadas, enquanto produtores rurais do Agreste relatam preocupação com a redução das chuvas e temem prejuízos à safra de 2026. Por Reginaldo Bezerra. 13 de julho de 2026 | Atualizado às 22h38

Super El Niño coloca Brasil em alerta; agricultores do agreste de Pernambuco temem impactos da irregularidade das chuvas

Imagem acervo do portal

O aumento da probabilidade de formação de um Super El Niño acendeu um alerta entre meteorologistas e autoridades climáticas no Brasil. Embora ainda esteja em fase de monitoramento, o fenômeno pode alterar significativamente o regime de chuvas e as temperaturas em diversas regiões do país. Em Paranatama, no Agreste Meridional de Pernambuco, agricultores familiares já observam mudanças no comportamento das chuvas e demonstram preocupação com os reflexos sobre as lavouras de feijão, milho e mandioca, embora ainda não exista confirmação de que essas condições estejam diretamente relacionadas ao El Niño.

Nordeste pode sentir os efeitos caso o fenômeno se confirme

Ao longo da história, episódios de El Niño costumam provocar alterações no regime de chuvas em diferentes partes do país. No Nordeste, especialistas apontam que o fenômeno pode favorecer períodos de chuvas abaixo da média em algumas áreas, embora os impactos variem conforme a intensidade do evento e outros fatores atmosféricos.

Instituições como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) e o Cemaden continuam monitorando a evolução das condições oceânicas antes de confirmar quais regiões poderão sofrer os maiores impactos.

Em Paranatama, agricultores demonstram preocupação com a falta de chuva

Mesmo sem confirmação científica de que a irregularidade das chuvas esteja relacionada ao possível Super El Niño, agricultores de Paranatama afirmam que a redução das precipitações já desperta preocupação quanto ao desenvolvimento das lavouras.

Um produtor rural residente do sítio Lagoinha do Poço, procurou a redação do Paranatama News e enviou um vídeo mostrando sua plantação de feijão e milho. Confira o vídeo pelo seguinte Link. Segundo ele, o volume de chuva observado neste ano está abaixo do esperado para o período.

"Ano passado, por esse tempo aqui estava alagado. Esse ano teve chuva, mas foi pouca, mais no início do ano. Esse mês, que era pra chover mais, a chuva não veio. Sei não, só por Deus, do jeito que vai. Não tem o que fazer. O trator demora chegar e quando vem, aí é tarde. Mas, fazer o que né? Ter fé em Deus, né."

Segundo o agricultor, ainda é cedo para afirmar que haverá perda da safra, mas a permanência da estiagem aumenta a preocupação dos produtores que dependem exclusivamente das chuvas.

Outro relato reforça a apreensão na zona rural

No Sítio Cachoeira, outra agricultora também entrou em contato com a redação do Paranatama News e encaminhou um vídeo mostrando a lavoura de feijão pertencente ao seu irmão.

Segundo ela, parte da plantação começou a apresentar sinais de comprometimento devido à falta de chuvas mais regulares.

"Tinha muitas flores ainda, o feijão, as bajes muito nova né, não tinha formado, nem caroço não tinha endurecido na verdade né. As macaxeiras em alguns lugares nasceu, as que nasceram estão morrendo né, aqui ó..."

O vídeo foi enviado à reportagem como forma de registrar a situação enfrentada pela família e a preocupação com o restante da safra.

Produtores associam cenário ao possível El Niño, mas especialistas mantêm monitoramento

Entre agricultores da região, cresce a percepção de que a irregularidade das chuvas possa estar relacionada ao possível fortalecimento do El Niño.

No entanto, especialistas ressaltam que não é possível atribuir um evento isolado de estiagem exclusivamente ao fenômeno climático. Alterações no regime de chuvas dependem de uma combinação de fatores atmosféricos e oceânicos, motivo pelo qual os órgãos oficiais seguem acompanhando diariamente a evolução do cenário climático.

Agricultura familiar pode sofrer impactos caso a estiagem continue

Se as chuvas não retornarem nas próximas semanas, agricultores ouvidos pela reportagem avaliam que parte das lavouras poderá registrar perdas parciais e, em algumas propriedades, até perda total da produção de feijão, milho e mandioca.

Em municípios como Paranatama, onde predomina a agricultura familiar de sequeiro, uma eventual quebra da safra afeta diretamente a renda das famílias, reduz a circulação de recursos na economia local e compromete atividades ligadas ao comércio rural.

Possíveis impactos na agricultura familiar e na economia do Agreste

Caso a irregularidade das chuvas persista nas próximas semanas e as precipitações não retornem em volume suficiente para recuperar as lavouras, produtores rurais alertam que a safra de feijão e milho de 2026 poderá registrar perdas parciais e, em algumas propriedades, até perdas totais.

Em municípios como Paranatama, onde grande parte da produção é conduzida por agricultores familiares e depende exclusivamente das chuvas, a redução da produtividade representa um impacto que vai além do campo. A agricultura movimenta a economia local, gera renda para centenas de famílias e impulsiona o comércio, especialmente durante o período de colheita.

A diminuição da produção tende a reduzir a circulação de recursos no município, afetando desde pequenos comerciantes até fornecedores de insumos agrícolas, transportadores e trabalhadores temporários contratados durante a safra. Em cidades do Agreste Meridional, onde o cultivo de feijão e milho constitui uma das principais atividades econômicas do meio rural, uma quebra significativa da produção pode comprometer a renda de milhares de famílias.

Mercado acompanha evolução da safra

O mercado nacional já monitora com atenção as condições climáticas. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) mostram que, em 10 de julho, a saca de feijão-carioca de melhor qualidade (60 kg) era negociada entre R$ 376 e R$ 411, dependendo da praça produtora. Já o feijão-preto tipo 1 apresentava cotações entre R$ 198 e R$ 247 por saca.

No Agreste de Pernambuco, o feijão-mulatinho, amplamente cultivado pelos agricultores familiares, costuma acompanhar a valorização do feijão-carioca, uma vez que ambos pertencem ao grupo comercial dos feijões comuns. Os preços pagos ao produtor variam conforme a qualidade do grão, o volume ofertado e a demanda regional.

Tendência é de valorização caso haja quebra de safra

Especialistas do mercado agrícola explicam que, se a estiagem provocar redução significativa da oferta de feijão nas regiões produtoras, a consequência natural será uma pressão de alta sobre os preços ao longo do segundo semestre.

Historicamente, entre setembro e dezembro, quando a disponibilidade de produto diminui e o consumo permanece aquecido, o mercado tende a reagir com valorização das cotações. Caso as perdas nas lavouras sejam confirmadas, consumidores poderão sentir aumento no preço do feijão nos supermercados e feiras livres, enquanto os agricultores que conseguirem colher terão um produto potencialmente mais valorizado.

Entretanto, para a maioria dos pequenos produtores de Paranatama, uma eventual alta nos preços não representa, necessariamente, vantagem econômica. Sem produção suficiente para comercializar, muitos agricultores deixam de aproveitar essa valorização e acumulam prejuízos causados pela perda da safra, dos investimentos realizados no plantio e da renda que sustentaria suas famílias ao longo do ano.

Diante desse cenário, cresce a expectativa por chuvas nas próximas semanas. Para os agricultores familiares, a recuperação das lavouras ainda depende das condições climáticas. Caso a estiagem persista, 2026 poderá ser lembrado como um dos anos mais difíceis para a produção de feijão e milho no Agreste Meridional de Pernambuco.