Trump classifica PCC e CV como terroristas e ameaça usar força militar no Brasil; governo Lula repudia e fala em "coação antidemocrática"
Decisão dos EUA transforma facções criminosas brasileiras em alvos de sanções, operações de inteligência e possíveis ações armadas; medida divide políticos e especialistas sobre limites da soberania nacional Por Redação ParanatamaNews 01 de junho de 2026 | 18h27 (Brasília)
O governo dos Estados Unidos decidiu classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, em uma medida sem precedentes que coloca as duas maiores facções criminosas do Brasil no mesmo patamar jurídico de grupos como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda.
A decisão, anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio na quinta-feira (28), foi reforçada pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, que afirmou que o presidente Donald Trump está disposto a usar "meios econômicos e militares" para "eliminar" as organizações incluindo ações no território brasileiro, caso necessário.
A classificação entra em vigor no próximo dia 5 de junho e aciona um arsenal jurídico-estratégico que vai desde o congelamento de ativos e sanções financeiras até a autorização para operações de contraterrorismo. O anúncio ocorre 48 horas após o encontro entre Trump e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Casa Branca, que teria solicitado pessoalmente a medida ao republicano.
A reação do governo brasileiro foi imediata: o Itamaraty condenou "o uso de sanções econômicas ou ameaças de uso da força" e acusou "forças antidemocráticas" de tentar instrumentalizar governos estrangeiros contra as instituições nacionais.
A decisão: do que se trata
Em comunicado oficial, o Departamento de Estado dos EUA definiu o PCC e o CV como "Terroristas Globais Especialmente Designados" (Specially Designated Global Terrorists). A partir de 5 de junho, as facções passarão a integrar a lista de "Organizações Terroristas Estrangeiras" (Foreign Terrorist Organizations), o que ativa mecanismos previstos em leis antiterrorismo aprovadas pelo Congresso americano após os atentados de 11 de setembro de 2001.
O texto do Departamento de Estado deixa claro o alcance da medida:
"O governo Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses em segurança nacional, mantendo as drogas ilícitas longe de nossas ruas e interrompendo o fluxo de receita que financia narcoterroristas violentos."
O comunicado ainda destaca que o PCC e o CV "comandam milhares de integrantes" e que suas redes ilícitas se estendem "muito além das fronteiras do Brasil, por toda a nossa região e em nosso país" uma referência direta à presença das facções em rotas de narcotráfico que alcançam o território norte-americano.
Ameaça militar: o que disse a Casa Branca
A declaração mais contundente veio da porta-voz Karoline Leavitt, em entrevista coletiva realizada nesta segunda-feira (1). Questionada sobre possíveis ações retaliativas contra o Brasil, Leavitt não descartou o uso da força:
"O presidente Trump não tem medo de usar meios econômicos nem militares para proteger a liberdade de expressão ao redor do mundo."
A frase, embora tenha sido dada no contexto de uma pergunta sobre sanções ao Brasil, ecoa uma retórica que a administração Trump vem construindo desde o início do segundo mandato: a de que o "narcoterrorismo" justifica intervenções diretas em países latino-americanos. Leavitt, no entanto, amenizou em seguida:
"Não há nenhuma ação adicional contra o governo brasileiro no momento."
A ambiguidade da declaração ao mesmo tempo ameaçadora e conciliatória é vista por analistas como típica da estratégia de comunicação de Trump, que costuma usar a linguagem da força como instrumento de pressão diplomática.
Reação do Brasil: Itamaraty, Casa Civil e Planalto
A reação do governo brasileiro foi coordenada e veio por múltiplas frentes. O Ministério das Relações Exteriores divulgou nota oficial na qual "condena o uso de sanções econômicas ou ameaças de uso da força contra a nossa democracia" e alerta para o risco de "instrumentalização" de governos estrangeiros por "forças antidemocráticas".
A ministra da Casa Civil, Rui Costa, foi além. Em postagem nas redes sociais, classificou a declaração de Leavitt como "totalmente inadmissível" e acusou diretamente a família Bolsonaro de conspirar contra o país:
"A família Bolsonaro não se contenta em destruir o Brasil por dentro. Agora, busca apoio externo para coagir nossas instituições e livrar o ex-presidente da prisão."
A referência de Rui Costa é ao fato de que Jair Bolsonaro está preso desde fevereiro de 2026, acusado de crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023. O senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, esteve na Casa Branca na terça-feira (26) e, segundo fontes próximas, teria pedido a Trump a classificação das facções como terroristas uma medida que, na avaliação do governo federal, visa criar um cenário de instabilidade para pressionar o Judiciário brasileiro.
A trilha que levou à decisão: Eduardo Bolsonaro, o "Escudo das Américas" e a armadilha diplomática
A classificação das facções como terroristas não surgiu do nada. A jornalista Mariana Sanches, em reportagem publicada pelo The Intercept Brasil, revelou que a possibilidade teria sido discutida em reunião com países da região no âmbito da iniciativa Escudo das Américas um projeto de Trump voltado ao combate ao narcotráfico, ao crime organizado e à imigração ilegal.
Segundo a reportagem, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro teria pedido a chefes de Estado presentes ao encontro para levar o assunto ao presidente americano. A gestão é interpretada por analistas como uma armadilha em duas frentes:
Diplomática: introduz ruído na relação bilateral entre Brasil e EUA justamente quando o presidente Lula se preparava para uma visita oficial a Washington;
Eleitoral: a rejeição esperada de Lula à proposta de intervenção externa poderá ser explorada em debates eleitorais como sinal de conivência com o crime organizado.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reforçou essa leitura ao dizer que o plano de Trump é uma "oportunidade", pois o apoio dos EUA torna "mais fácil" fazer um "combate ainda mais efetivo" ao crime. A declaração de Tarcísio, aliado da família Bolsonaro, sinaliza que a oposição de direita deve usar o tema como bandeira eleitoral para 2026.
O que muda na prática: sanções, soberania e o fantasma da AUMF
A designação como organização terrorista aciona um conjunto de mecanismos jurídicos com potencial de impactar não apenas as facções, mas também a economia e a soberania brasileiras.
O elemento mais preocupante, no entanto, é a Authorization for Use of Military Force (AUMF), lei aprovada pelo Congresso dos EUA em 14 de setembro de 2001, que autoriza o presidente a usar força militar contra grupos envolvidos nos atentados de 11 de setembro.
A administração Trump já estendeu a interpretação da AUMF para justificar ações militares contra barcos supostamente operados por cartéis de drogas no Caribe. Analistas de relações internacionais alertam: se a mesma lógica for aplicada ao PCC e ao CV, o Brasil poderia ver sua soberania territorial questionada sob o argumento de "autodefesa" ou "combate ao narcoterrorismo".
O debate técnico: crime organizado ou terrorismo?
A classificação de Trump divide especialistas. Para o governo brasileiro e parte da comunidade acadêmica, há uma distinção fundamental entre crime organizado e terrorismo:
Crime organizado: motivação econômica (lucro), sem agenda política ou ideológica;
Terrorismo: motivação política ou ideológica, com uso da violência como instrumento de coação. As facções brasileiras, segundo essa análise, se enquadram no primeiro grupo. O PCC e o CV são organizações voltadas ao tráfico de drogas, extorsão e lavagem de dinheiro crimes graves, mas de natureza diferente do terrorismo.
Para a administração Trump, porém, essa distinção perdeu relevância.
O republicano tem classificado sistematicamente cartéis latino-americanos como terroristas, ampliando o conceito para justificar uma política de intervenção direta na região. México e Brasil se opuseram à medida. Equador e Honduras, governados por aliados de Trump, apoiaram.
Cenário político: a eleição de 2026 e a soberania em jogo
A decisão norte-americana chega em um momento de alta tensão política no Brasil. Com Bolsonaro preso e a eleição presidencial de outubro de 2026 se aproximando, a classificação das facções como terroristas se transforma em arma eleitoral.
A direita brasileira, liderada pelo PL e aliados de Trump, deve usar o tema para acusar Lula de "frouxidão" no combate ao crime. O governo federal, por sua vez, deve reforçar a narrativa de que a medida é uma ameaça à soberania nacional e uma tentativa de interferência externa nos assuntos internos do país.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública, comandado por Flávio Dino, ainda não se manifestou oficialmente sobre a classificação.
A expectativa é que o governo brasileiro articule uma resposta diplomática conjunta com o México e outros países da América Latina que rejeitam a expansão unilateral do conceito de terrorismo.